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6 de junho de 2017


Seja no transporte público, nas mesas de um restaurante, na academia, dentro dos carros, ou em tantos outros ambientes do cenário cotidiano, uma das cenas mais comuns que podemos observar é a de usuários ávidos e conectados em seus devices móveis. A participação de elementos humanos e gadgets não-humanos em rede é um dos grandes pontos de transição das tecnologias contemporâneas: um fato que aumenta exponencialmente as possibilidades para que marcas, produtos e serviços multipliquem as formas de capturar dados para criarem uma comunicação mais personalizada ou significativa com seus consumidores.


Neste contexto, há um fato indiscutível no significativo aumento do uso de smartphones, wearable devices e outros aparatos móveis conectados com a internet e com feature de geolocalização: os usuários destes tipos de tecnologia são enormes produtores de rastros digitais nos diferentes locais por onde transitam. Estes rastros (ou dados) se materializam quando uma rota é traçada no app de mobilidade urbana, uma consulta no saldo do banco é feita, uma compra é finalizada por meio de um site, um check-in é realizado na rede social favorita e em tantas outras situações.

Em sua tese de 2016 sobre a “Exposição de si e gerenciamento da privacidade de adolescentes nos contextos digitais”, o pesquisador Rodrigo Nejm discute que o uso intenso de tecnologias digitais no cotidiano está gerando uma gigantesca quantidade de dados que se transformam em rastros de inúmeros indivíduos. Estes rastros digitais, inevitavelmente, refletem aspectos pessoais dos usuários e, grande parte deles, estão disponíveis para acesso de outros usuários, empresas e seus algoritmos.

Os mesmos dados que são gerados nestas plataformas também fluem por meio delas e reconfiguram a maneira com que trabalhamos, socializamos, jogamos, praticamos exercícios, nos alimentamos e conhecemos o mundo. Quanto mais sofisticados os aparatos, mais dados podem ser capturados. Conforme apontamos no título deste post, as regras do jogo estão se reconfigurando. Será que elas estão claras para todos? Nesse cenário, todo aplicativo/device precisa deixar claro que fim dá aos dados que monitora dos usuários. É preciso esclarecer como a geolocalização atua no dia-a-dia e, de fato, se os dados capturados dos indivíduos geram algum tipo de uso para comunicação e marketing para determinadas empresas.

Alguns aplicativos, nos primeiros momentos de interação do usuário, precisam deixar claro como monitoram as ações do mesmo e se os dados gerados na experiência são confidenciais ou compartilhados com empresas ou outros usuários. Entendemos que, neste cenário, controlar o que será compartilhado ou quais rastros dos usuários serão passíveis de ser monitorados/encontrados é um fator bastante obscuro. Sabemos que há uma monetização dos rastros digitais de usuários, mas muitas empresas ainda se negam a expor de maneira clara como isso acontece. Vale reforçar que, em um mundo repleto de dados digitais, é necessário pensar em legislações mais sofisticadas que determinem quais os limites que podem ser atingidos pelas empresas em relação aos consumidores conectados.

A empresa Bose, famosa fabricante de fones de ouvido, por exemplo, está sendo processada nos Estados Unidos por violar leis de privacidade do consumidor. Por meio do app de smartphone da marca que recolhe dados de gosto musical do usuário para vender, sem permissão, para outras empresas. Este é um exemplo isolado, mas suscita a discussão sobre o quanto nossas tecnologias de estimação nos vigiam.

Ao terminar de ler este texto, faça um exercício interessante: reserve um momento para ler os termos de aceitação dos apps/devices que você mais utiliza. Veja quais deixam claro os quesitos de monitoramento e quais sequer mencionam este atributo. Parafraseando o jornalista David McCandless em seu TED Talk, “dados são o novo petróleo”; uma boa ideia pode ser ficarmos mais atentos a esta “riqueza” que todos nós produzimos.


>> Precisa de um atalho?
  • Os usuários de smartphones, wearable devices e outros aparatos móveis conectados com a internet e com feature de geolocalização são enormes produtores de rastros digitais nos diferentes locais por onde transitam.
  • O pesquisador Rodrigo Nejm argumenta que tais rastros digitais “refletem aspectos do self”, ou seja, aspectos pessoais dos usuários e, grande parte deles, estão disponíveis para acesso de outros usuários, empresas e seus algoritmos. 
  • Nesse cenário, todo aplicativo/device precisa deixar claro que fim dá aos dados que monitora dos usuários.

Vince Vader é doutor em comunicação e consumo, game designer e supervisor da área de games do curso de Tech da ESPM. Também é autor dos livros "Game Design" e "Game Cultura" lançados pela Cengage Learning. Quer saber mais? Conheça nossos autores.
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